domingo, abril 27

Não consigo (dormir)

Não acho que entendo o que seja a incomunicabilidade. Percebo, só. Ela, só.
Mas ainda sinto como se fizesse tanto tempo (que eu não falo).

Eu não digo uma só palavra.

Tendo sentido muito a respeito de todas as outras coisas, a fala é algo que não atinjo mais. Logo, não escrevo mais. E sinto também a falta. Como tenho sentido saudade de tantas coisas. De tanta gente. E eu pronuncio saudades e escrevo saudades, e vai saber quem sabe. Vai entender quem ouve.

Há frases alheias cravadas em mim
[de um texto que li, de um texto que vi, de um texto que decorei].

E toda vez que quero falar, do jeito mais honesto que houver, eu copio esse texto. Eu falo esse texto. Eu cheiro esse texto e não faço mais ideia do que diria se tivesse minhas próprias palavras. Do que gritaria se não fosse o silêncio descrito por outro que me faz voltar a pensar que faz tanto tempo que não falo.

Tenho chorado tanto e engolido tanta lágrima. E não sei como dizê-lo ou como costumam dizer sem soar vago. Repetitivo. Talvez dramático.

Preciso voltar a escrever. Preciso tanto.
Como se meu choro dependesse disso. Como se minha rinite dependesse disso.

Esqueci tantas palavras, tenho tanto catarro. E nunca aprendi a me assoar. O nariz grande é de arrebentar em fungadas e fazer crescer em mãos rudes. Usei papéis para escrever, não para limpar meu nariz. Ainda que fosse a mesma coisa.

Quero voltar a escrever.
Eu poderia dizer até que minha alma depende disso, mas acho que já ouvi essa frase em algum lugar. E não foi naquele texto, embora ele tenha pronunciado isso em algum momento.

Tenho um corpo que não me cabe (e não sei explicar como). Um choro que não cessa e nem vem ao meu encontro. Um ventilador sujo e sapatos limpos. Cortinas empoeiradas que escondem meu nu. Eu nua num lugar que não foi violado. E tanta história.

Estou acumulando histórias. De outros e minhas, e não tenho a quem contar. Desaprendi! Não sei formular as malditas frases filhas de uma puta que me permitiam tagarelar cedo pela manhã. Eu não vivo mais cedo pela manhã. Não sei meu nome cedo pela manhã. Odeio vírgulas e hífens.

Quero voltar a ler.
Que eu fugia tanto. O tempo todo para dentro do que não estava exatamente em mim e tinha tantas palavras em tantas páginas. Na época, me ajudavam a dizer mais do que "eu", "tanto(a)", "que".

Sinto que há consoantes que não expresso mais. Não poderia me lembrar a última vez que usei o "Z" de forma que ele fosse memorável.

E tudo isso não me deixaria dormir. Como não deixou ontem. Nem antes de disso.
Não vivo mais cedo pela manhã. Só que faleço toda noite até que alcance o sono.

segunda-feira, agosto 26

O dano

Eu temi falar por tanto tempo.
  E eu disse tanto.
Tanta coisa.
Mundo, eu cuspi tanta palavra que nem sei.
Fiquei molhada. Me cuspi inteira, me molhei.
Gosto. Do úmido. É meio frio, mas é mais humano.
Gostei tanto que fiquei toda molhada. Os cabelos, os lábios, lá dentro.
Eu enfiei lá dentro e percebi. Que úmido! Que quente.
Eu desgosto de quase tudo.
        Que eu disse. Que eu deixei passar sem dizer.
Foi culpa. Do mundo. Eu ter ficado seca.
Cresceu a culpa, o dano. Maldito dano.
Meus lábios estão descascando, meus cabelos estão ressecados.
Não posso mais ser violada. Estou tão seca. Tão triste.
Mundo, eu olhei (olhei mesmo) lá dentro.
Eu quero estar úmida. Quero grudar nas coisas que toco.
  Quero ser pequena. Eu sempre fui tão estreita.
De profundidades tão inexistentes. Tão fáceis de preencher.
Mas não consigo pensar, porque estou enorme.
  Tem gordura no meu cérebro.
Injetada. Triturada. Parece que vou estar sempre enorme. De coisas que eu não gosto.
 Das coisas que eu não sei dizer. Das suas perguntas que me desagradam.
       Hoje já me dizem que sou tão séria. Para a minha idade.
Sou tanta coisa para minha idade que não caibo mais em dois algarismos. Impossível.
Um pavor de coisas que não me fazem feliz.
Que estranho. Eu não gostar de suas perguntas, evitar todos os seus sons,
achei que seria tão difícil.
E não é. Eu posso ficar tão seca tão rápido. Tão puta de um ódio inventado.
Posso ficar tão indiferente que você choraria. Como-se-eu-pudesse-me-importar.
Com você, mundo.
    Que nunca me perguntou se podia me fazer girar. Nunca.
Eu só ouvi as perguntas que eu não tenho vontade de responder.
As respostas que tenho medo de dar não foram tiradas de mim.
Você, mundo, nem os outros, pensaram em me transformar em água.
E eu quero. Ficar molhada. Imune.
À tristeza de toda seca. De qualquer seca.
        Hoje em dia eu sei palavras que você me ensinou sem se dirigir a mim.
Conheço a possibilidade de atacar você. Mas não vou.
Porque nunca te vi.
Só percebi ter ficado seca, por sua culpa. Eu, tão pequena, estreita e úmida. Tão seca.
Tão séria.
Tão calada.
Tão você e eles. Não gosto.
   Eu desgosto de quase tudo em que você cabe. O que você preenche é mais estreito do que jamais fui.
Tão triste.
Tão seca.
Nunca pensei que precisaria de água.

sexta-feira, agosto 16

Palavra(ão)

Eu volto porque tenho o medo, embora não tema nada.
Digo até que se faça possível o tal qualquer paralelo que nunca alcancei.
Ainda. Você. Diz. Porra. Você diz porra demais ainda.
Só que não fala. Quase nunca. Nem caralho.
Mas diz muito. Dentro. No branco. Na página.
É estranho achar que sei de onde. Mas é que li e acho.
Que de onde vem tudo isso, tem muita porra e caralho.
Só que não sei. Se raiva. Tem. Acho que tem.
Mas não deve ser tanta. E é outra coisa.
Que não tem. Pontuação. E talvez por isso diz muito. Diz porra.
É estreito e o aperto obriga. O toque. Não gosto.
Nunca gostei. Nada deve ser obrigado.
Mas que afeto que causa quando você diz. Quando fala do aperto, do estreito.
Eu usei palavra a vida toda. Mas palavra não diz, nada. Nem porra, nem caralho.
Jurei tanto que palavra dizia.
Mas se não ouvem, não disse. Ninguém ouve. Eu acho que ouço sua palavra. De outro lugar.
Que não é você que não diz caralho.
Vim de onde existem palavrões. Sou de um lugar que precisa deles.
O uso que faz da sua vida não condiz com o que não é dito.
Eu vejo vida, mas é estranho. Você tem vida e é quase outro.
Sinto falta. Das vírgulas. Das letras grandes.
Mas tem tanta coisa. Que não é certo, mas é bom. Que esqueço. Dos pontos.
Sou levada prum outro lugar que não é mais seu.
Porque você leva todos. É o mundo que te leva.
Amanhã ainda. Tenho quase certeza.
Então não diga. Nem porra, nem caralho.
Deixa que eu digo. Você me leva, e eu que digo.
Raiva. Tem? Tenho. Então diz. Que eu choro de raiva.
Repete porra. Que. Eu. Esqueço. Das. Vírgulas.
Mas vou precisar de letras grandes.

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Sobre/Para/De/ Danilo Reis.

segunda-feira, maio 20

Vevé, vevé, vevé, vevé


Trechos de uma carta dirigida a Evelise Marreiro, querida por mim como Vevé.

Vevé,


(...)

Se você pudesse atinar a quantidade de páginas que deveriam pertencer a você. Porque, por alguma razão, quando eu escrevo para você eu consigo dizer. As coisas. O meu pouquinho. Eu estou meio vazia. O que podemos fazer com o vácuo? Quando eu te encho de perguntas bobas, não é porque quero respostas. Honestamente, nunca achei que você fosse me dar respostas. E nem as quero. Só preciso que você me leia, me ame e me diga. Hoje é segunda-feira, Vevé.

Páginas vazias são difíceis de preencher. Você não acha? Quando eu vejo a folha em branco, eu penso: "Sou capaz de preencher isso?". O que eu tenho pra dizer? Me diz. Queria um jogo de quebra-cabeças. Queria muito.

(...)

Eu queria te ver no palco. Agora que percebi... Nunca te vi da plateia. E eu quero. Você é minha amiga? Vevé? O que você sente quando te aplaudem? Eu nunca te aplaudi e eu quero muito. Você merece e eu preciso bater palmas para você. Vevé, será que um dia a gente vai estar de novo no mesmo lugar? (...) Engraçado. Pensar em "Vevé" de alguma forma me acalma. Eu escrevo seu apelido e fico sorrindo. Vevé. Vevé. Vevé. Se eu te contasse do que eu sinto falta. Nem eu sei tudo o que eu sinto falta, mas sinto, até das coisas que ainda não estão ausentes.

Tem muito catarro no meu nariz, Vevé. Me empresta um lenço? Depois de me ler, me empresta teu ombro? Hoje em dia eu odeio minha letra, mas quando você responde às minhas cartas, ter escrito vale tão a pena. A tua caligrafia... Tem algo tão familiar nela.

Vevé. Teu apelido. Você não gosta mais dele. Mas posso dizer mesmo assim? É que gosto tanto. Vevé. Vem logo a tua imagem, teu riso escroto, o olho que não é verde, a cara de espanto. Evelise me lembra esse teu eu que já não mais convivo. Desculpe, dele eu não gosto tanto. Mas quando eu estiver na sua plateia, eu vou te aplaudir e dizer: "Minha amiga, Evelise Marreiro!" e quando você me ceder um autógrafo, você vai escrever: "Com amor, Evelise Marreiro" e eu vou gostar. Vou adorar. E direi: "Obrigada, Vevé". 

(...)

Toda vez que eu escrevo a você, eu choro. Na verdade, sou tão chorona. E sabe o que é estranho? É que de todas as memórias que tenho de nós, a que menos gosto é de quando choramos juntas, sem parar, no seu quarto escuro. Toda vez que lembro, aquilo me constrange. Desculpa. Não é vergonha de você, mas é que desde aquele dia, chorar junto não me conforta mais. Me bate um desespero. Mas Vevé, eu te juro... Quando eu estiver assistindo a uma peça sua e você chorar, eu chorarei junto e vou gostar. E no fim, quando eu te aplaudir e disser: "Minha amiga, Evelise Marreiro", se eu ainda estiver chorando, por favor, chora comigo. Vou adorar.

Você e seu apelido estão na minha lista de saudades.

Com amor, Jéssica.

quarta-feira, maio 15

Nem sei como intitular

Tem um mundo inteiro lá fora e de repente tem você. Depois, a gente. A princípio é tão estranho sentir tanto querer. Fico pensando, às vezes, que se eu deixasse jorrar meu amor sem controle, eu tornaria teus ombros pesados. Ai, que medo de amar de um jeito desenfreado. Porque formiga ou não, eu pretendo carregar você em meu corpo tão magro. É que gostar dar força e causa um prazer quase inimigo.
 
Já não pretendo mais entender o que quer seja que move tudo isso, a compreensão do amor parece tornar tudo meio inibido, não quero isso. Hoje não quero uma parcela de coisas; outras já forçaria serem possíveis. Mas não vou forçar nada, que meu amor não é obrigado. Meu amor é grande, incompreensível, bonito e clichê, como tudo que eu digo. Mas é seu. É meio nosso e seu.

Se me perguntar o que me inspirou, eu digo você. E a sua atenção. Queria saber se tem dedicações assim em todo lugar. Mas ainda que existam, não vejo razão alguma para procurar. Para mim basta tanto todas as formas como já demos as mãos. Dedos segurados, entrelaçados, pulsos amarrados. Sinto que até de mãos soltas tem algum tipo bom de estado.

Você está aí? Está. Estou aqui também esperando que sempre saiba disso. Você está aí? Nunca estive tanto em um lugar. Não lembro de ter me esforçado tanto para ficar. E quero ficar. Contigo, por perto. Ainda que longe, do lado. Você está aí? Eu queria te perguntar porque você está aí, mas eu posso aproveitar? Você deixa eu só aproveitar?

Esse sentir ninguém nunca me deu. E eu quero te dar ele todo. Você me deixa, apesar de tudo? Mas eu não te amo apesar de tudo, eu te amo com tudo.

Ainda tentando.

Retorna.

Abre a porta, promete que vai falar e cala. Não é mais cansaço, é pura náusea. Causa alguns engasgos, uma certa raiva. Um nó.

Nó.

Diz que está tudo bem. As coisas vão melhorar. Implora (para quem não acredita) que o tempo corra. Que tudo urja. Tal estado do passar dos dias traz claustrofobia, medo que se desconhece. Coisas que não são suas.

Suas.

Sensibilidades e ausências. De si, dos outros. O que te apavora nem sempre te fortalece. Pergunta coisas tolas. Dorme. Só que não adianta, vai acordar depois. Não no depois que deseja. Realmente, uma pena.

Pena.

Momento chato. Vida simples. Vai até a casa ao lado, pede o açúcar, o pão, quem sabe a manteiga, pede amor também, atenção. Faz juras de reciprocidade. Mas pra casa, só, retorna.

Retorna.

sábado, maio 11

Tentando contar.

Insetos não são companhia. Por favor, não entrem na minha casa.

Não moraria numa cidade como essa. Não acho que gosto de São Paulo, mas nunca me identifiquei tanto com um lugar.

Metrô é a coisa mais fácil de se identificar do mundo.

Travada. Contei até dez e nada. Sinto falta dela, odeio ouvir seu choro. Fico louca de vontade de pedir pra me amar. Pra sempre. E ela vai. Mas eu sinto vontade de pedir mesmo assim.

Hoje pensei que, talvez, eu não te reconheça. Que um dia serei mais estranha pra você do que sou agora. Desculpa, eu te amo. Eu só não soube demonstrar. E não sei se agora ainda posso.

Quero freios. Dizer não para mim.

Eu evitei este lugar. O não lugar. Mas acho que já chega fingir que pertenço. Ou pertenço ou não. Certo? Porque não surge ninguém que aponte, que me garanta? Juro que lutei para não dizer. Só que cansa negligenciar o pedregulho no sapato.

Quando tudo recomeçar, vai ser melhor. Não mais fácil, mas melhor.

Não estou triste, juro. Só estou tentando juntar todas as merdas que estão passando pela minha cabeça. Coisa juvenil.

Yann Tiersen, queria dizer a você que ouvi-lo me acalma. Porque muitas vezes me faz chorar e logo fico aliviada.